Ordo Fratrum Minorum Capuccinorum

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updated 10:09 AM CEST, Oct 21, 2020

“Há 40 anos prego aos Papas”

Avvenire.it

Autor - Filippo Rizzi

Aniversário. Cantalamessa: “Há 40 anos prego aos Papas”

Fr. Raniero Cantalamessa fala do aniversário de nomeação a este ofício da Casa Pontifícia. O capuchinho: João Paulo II me escolheu foi uma surpresa.

Era 23 de junho de 40 anos atrás quando o Papa João Paulo II escolheu como Pregador da Casa Pontifícia – ofício que, por tradição, desde 1743 é confiado a um frade menor capuchinho, como o de teólogo a um religioso da Ordem dos Frades Pregadores, mais conhecidos como dominicanos – o franciscano Fr. Raniero Cantalamessa. Um aniversário que tem sabor de primado para este religioso de origens “marchigianas” que, desde 1980, encontra-se ininterruptamente até hoje a orientar as meditações de oração em tempos liturgicamente fortes, como o Advento e a Quaresma, na presença de três Papas, João Paulo II, Bento XVI e Francisco, e da Cúria Romana. “Um recorde como Pregador da Casa Pontifícia – reconhece sorrindo o capuchinho de 85 anos, que transcorreu todo o período da emergência sanitária distante dos holofotes midiáticos em seu amado eremitério do Amor Misericordioso, na província de Rieti, às portas de Roma, com algumas monjas de clausura – que será difícil atingir... mas não sei se é invejável. Apenas o meu predecessor neste encargo dentro da Família Pontifícia, Fr. Ilarino de Milão (no século: Alfredo Marchesi), desempenhou a função de Pregador Apostólico por vinte anos e para quatro Papas: Roncalli, Montini, Luciani e Wojtyła. Tenho uma explicação pessoal para a minha duração neste encargo, e não é apenas uma “piada”. Seja Wojtyła, seja Ratzinger, seja Bergoglio, três Papas sábios, intuíram que esse era o lugar no qual eu, Frei Cantalamessa, podia causar menos danos à Igreja, e, por isso, mantiveram-me neste ofício”. Um personagem, Fr. Raniero, que – além de ter sido em 1969, com Giuseppe Lazzati, um dos “padres fundadores” do Departamento de Ciências Religiosas na Universidade Católica de Milão – ostenta um outro importante primado: o de ser, após o lendário Fr. Mariano de Turim, o frade capuchinho mais conhecido da TV, tendo sido por 15 anos convidado fixo do programa do canal Rai “A Sua Immagine”.

Como soube, Fr. Raniero, dessa nomeação inesperada?

Na verdade, em 23 de junho acontece o 40º aniversário da minha nomeação a pregador da Casa Pontifícia, mas não do início. De fato, o meu mandato começou com a Quaresma de 1980, isto é, três meses antes. Acredito que o Papa João Paulo II, muito justamente, queria fazer um “teste” antes de me designar oficialmente o “papel”. Recordo que recebi um telefonema do então Ministro Geral dos Capuchinhos Fr. Pasquale Rywalski. Dizia: “O Santo Padre, João Paulo II, escolheu-o como Pregador da Casa Pontifícia. Tem sérios motivos para renunciar?”. Procurei os sérios motivos, mas não encontrei, além de uma certa compreensível surpresa e uma forte trepidação.

O que significa para um “simples” frade capuchinho proferir a “pregação” aos Papas?

Na verdade, os papéis, neste caso, estão invertidos. É o Papa quem faz a pregação ao Pregador e a toda a Igreja. Às vezes, quando João Paulo II me agradecia após a pregação, eu lhe dizia que a verdadeira pregação era a que ele fazia a mim e a toda a Igreja. Um Papa que, toda sexta-feira de manhã, às 9h, no Advento e na Quaresma, encontra tempo para ir escutar a pregação de um simples sacerdote da Igreja!

Que lembrança conserva de João Paulo II?

Ter podido conhecer João Paulo II de perto, por 25 dos seus 27 anos de pontificado, foi um privilégio do qual ainda tento dar-me conta. Para mim, o Papa Wojtyła é um homem que viveu toda a vida ao lado de Deus e ao lado do mundo. A lembrança mais viva que conservo dele é a do encontro que tive ao término da última pregação quaresmal a apenas duas semanas antes de sua morte. Tinha seguido a pregação do seu apartamento. Sentado em sua poltrona, sofredor, mas atento, falamos mais com o olhar do que com as palavras. Foi a minha despedida pessoal dele.

E de Bento XVI?

O meu conhecimento e a convivência com o Cardeal Ratzinger remontam ao momento em que ele era Presidente da Comissão teológica internacional (Cti) e eu, um dos trinta membros, de 1975 a 1981. Dele, sempre me tocou a capacidade de moderação nos debates e o seu conhecimento perfeito do latim. Como cardeal, jamais faltou à minha pregação. Os oito anos como Pontífice de Bento XVI significaram para mim a promoção da dimensão doutrinal e teológica e o diálogo com a cultura do momento. Penso que sua renúncia ao ministério petrino – a primeira na história totalmente livre e não condicionada pelo exterior – terá repercussões históricas positivas no futuro do papel do Romano Pontífice, tornando-o mais conforme à necessidade humana.

Em 2013, com a eleição ao sólio de Pedro de um Papa que escolhe ser chamado de Francisco, pôde entrever quase um retorno profético àquele “radicalismo evangélico” do qual o Pobrezinho de Assis foi o promotor e o paradigma. Pode nos explicar o porquê?

O meu conhecimento de Bergoglio remonta aos tempos em que ele era Cardeal e Arcebispo de Buenos Aires. Lembro dele como um homem muito discreto. Tive a ocasião de pregar dois retiros ao seu clero, o último, poucos meses antes de sua eleição a Pontífice. Quando, na televisão, ouvi o nome que tinha escolhido e o vi se apresentar na sacada central da Basílica de São Pedro, saudar o povo com “Boa noite!” e pedir para ser abençoado pelo povo, disse a quem estava comigo: “Não está inventando nada para benefício das câmeras. Este é o homem. Bergoglio é assim”. Nestes sete anos desde aquele dia, a minha estima (e com ela, a gratidão a Deus) cresceu de modo exponencial.

Entre as curiosidades de sua atividade de pregador, há também a de ter proferido um sermão em 2015 ao Sínodo Geral da Igreja Anglicana na presença na Rainha Elizabeth. Que lembrança conserva daquele evento histórico?

Foi um dos momentos mais significativos do meu “ministério ecumênico” de pregador. Frequentemente, ao longo destes anos, fui convidado a falar aos pastores das diversas confissões cristãs, de Luteranos a Pentecostais. A convite do Primaz Anglicano Justin Welby, proferi a homilia na Abadia de Westminster pela inauguração do Sínodo em 2015. A Rainha fez notar a novidade do fato. Se um padre católico, disse, tinha sido convidado a pregar em Westminster, queria dizer que algo estava realmente mudando entre os cristãos.

Fundamental em sua longa biografia foi também o seu encontro com o movimento da Renovação Carismática...

Em 1977, depois de muita resistência, eu me rendi e, durante uma viagem aos Estados Unidos, recebi o que – com as palavras de Jesus em Atos dos Apóstolos 1,5 – é chamado de “batismo no Espírito”. Foi a maior graça da minha vida, depois do batismo, da profissão religiosa e da ordenação sacerdotal. Uma graça que renovou e revigorou todas as graças precedentes e que eu recomendaria a todos fazer, cada um no modo e segundo a ocasião que o Espírito lhe oferecer. O Papa Francisco não deixa passar a ocasião para nos recordar: uma verdadeira renovação da vida cristã e da Igreja não poderá acontecer senão “no Espírito Santo”. A própria unidade dos cristãos é obra Sua.

Quais sonhos sente que deve guardar, como “frade ancião”, às novas gerações da Igreja católica?

Confesso que as recorrentes previsões sobre o inevitável ocaso da Igreja e do cristianismo em uma sociedade sempre mais tecnologista me fazem sofrer, mas também sorrir. Temos uma profecia com muito mais autoridade, na qual confiar: “O céu e a terra passarão, mas minhas palavras jamais passarão” (Mateus 24,35). Às novas gerações de cristãos, eu gostaria de bradar com o Apóstolo: “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e sempre. Não vos deixeis extraviar por qualquer espécie de doutrina estranha” (Hebreus 13,8-9).

Última modificação em Quarta, 01 Julho 2020 13:03